A rua está na moda. Os grafitis e os murais nas paredes do edificado fazem da cidade um museu forçado, os painéis publicitários fazem dela espaço de disputa privada, mercedes numa esquina danone na próxima, herbalife numa rotunda, tudo para os herbívoros, para os automobilizados, para os barriga lisa, para essa ficha de cor chamada utentes, para os consumo-gratificados-clientes, para os muit’obrigados, para os pagantes, para os olhantes — em Ben Jonson, no Alquimista, há quem na Rua dos Restaurantes, passeante, se tenha especializado em cheirar os menus que nas cozinhas vão sendo convertidos em pratos fumegantes.
Para uns é repugnante o cerco visivo, nenhum ângulo escapa ao cálculo, não há pontos de fuga, nem metodológicos, as paisagens da mercadoria estão em todos os lugares de espírito, nos altares celebra-se a qualidade da cor, a suavidade da lingerie, o aerodinâmico cachecol, o sabor a morango, o viagra adequado, mesmo o cheiro da intimidade, só nós dois… Para outros é estimulante a cidade grafitada contra a outra publicitante, pensam. Lamentavelmente, para além de actos de criação, muita letra paredificada é analfabeta e outra nem a beleza do que é selvagem apresenta, nenhuma entropia leva a algum lado, a confusão é o resultado.
O espaço vazio vadio, as paredes, disputadas ao centímetro nas concentrações multitudinárias próprias das relações de exposição intensificada da oferta-procura, foi convertido em espaço comprado, é nas periferias mais alargadas que sobrevive — ainda há paredes meio abandonadas, empenas distraídas para grandes murais, poucas e há mesmo superfícies disponíveis, poucas, em prédios de habitação social.
O espaço vazio vadio converteu-se em espaço publicitário, não em espaço público, esse nada tem com marcas nem com lucro, e algumas formas de protesto, logo recuperadas para o discurso da inclusão e da mesma oportunidade para todos — que custa dizer isto? —, aparecem contra esta lógica tentando provocar, despertar reacções inteligentes, estimular vidas sem trela, em que cada um não seja dependente de nada nem de ninguém, não seja escravo nem subalterno, não seja objecto de assédio, não seja excluído, sem acesso a um nome como sujeito, sem possibilidade de se sentir ser gente, alguém mesmo que filho de ninguém.
Esse espaço da cidade que agora a rua ocupa e que reivindica um lado mais democrático que muitos espaços fechados, deixou em boa verdade de ser isso, pois nada escapa ao poder do fluxo publicitário, o que significa que a rua foi privatizada além de estatizada, municipalizada, é uma imensa garagem desarrumada, a coima e o parquímetro sempre à espreita, a turistificação está a ser a estocada final: o espaço público enquanto democracia é uma ficção — quando se fala de artes de rua é disso que estamos a falar, de facto a rua não não é o espaço democratizado de todos mesmo que esses todos seja um todos massivo, ela é o lugar de exposição das marcas, do poder dos grandes empórios e o lugar de um sem fim de proibições — dir-se-à: apesar disso é a violência que se sabe; pois esse é o resultado deste grau de privatização: há feudos e minifúndios no que é de todos, com fronteiras.
Nesta medida não há arte pública pela simples razão que não há cidade. Que resta então? O subterrâneo, o circuito das toupeiras, as periferias que não têm nenhuma vocação de moda, nenhum design industrial a converter em património, nenhum tipo de degradação atraente…
De facto, nesta era hipermassiva — de controlo — que sala é suficientemente grande para tanta multidão concentrada que não seja um campo da bola? A rua.
Que nos resta? Conquistá-la, como os outros assaltaram o Palácio de Inverno, nesse tempo das assembleias combativas de deserdados.
É assim que um espaço fechado, livre de outras contaminações que não sejam artísticas e sem finalidades lucrativas, é um espaço público democrático em potência, isso dependerá do modo como a cidade — a comunidade — nele seja recriada, delegadamente, em cada assembleia, cidade reinventada, um todo que só pode ser um todo de partes emancipadas.

fernando mora ramos

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