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Um caderno de programação anuncia uma programação. O que é uma programação? É um conjunto de partes que tende a ser a potência de um todo em concretização e que se supõe que traga benefícios de natureza sensível aos destinatários e aos que o fazem: estéticos, didácticos, cognitivos, de prazer de socializar, de prazer do prazer e do exercício da crítica em comum, dissensão e convergência, polémica útil e afinidades. Os destinatários são a comunidade imediata e outras, os partidários de teatro, os melómanos, os amantes de belas artes, os performers de performances solitárias, os grafiteiros, os designers, as crianças, génios imaginadores, os postos de lado, os não espectadores, que queremos o venham a ser, os rotineiros, os espectadores, em suma, de muitas origens — e criaturas do mundo global, porventura mais sujeitos globais que cidadãos do mundo.
É portanto uma articulação de projectos, de realizações artísticas. Essa articulação pressupõe uma coerência do que articula, uma lógica sequencial dos objectos artísticos que no tempo encontra uma razão de efectivação, um calendário — que se faz com as datas e rituais da comunidade. O programa também é a força imanente, de estímulo e complementaridades, que resulta do que se vai juntando, pois uma programação nem é uma soma, uma colecção arbitrária de gestos, nem um menu ao gosto do cliente. É o resultado de opções dos fazedores das realizações que o “programador” vai escolhendo segundo critérios uns objectivos, outros mais subjectivos, mas sempre qualificadores — os teatros dessa Europa sempre foram “programadores” e nós por cá também, na nossa medida, alguns de nós, que justamente pensam a cidade. Em Milão, por exemplo, já nos anos sessenta/setenta, o Piccolo fazia os seus ciclos de “música per”, “música per Calderon”, para Strindberg, etc.
Este nosso programa é diverso, mais completo, tem mais mundo e diferença dentro, outros artistas e outros destinatários. Não damos um passo sem pensar no outro, na comunidade na sua diversidade, nem damos um passo sem pensar que as cumplicidades teatrais e artísticas, em sentido lato, propiciam, no prazer esclarecido e ético do encontro cúmplice, alargamentos do mundo que queremos. Não queremos o mundo como está, por isso fazemos o que fazemos, a nossa é uma actividade pela mudança, constante, tudo o que fazemos é ao encontro do que está desencontrado, injusto, despreza o humano e o natural. Não vamos atrás das novas da economia panaceia, as estatísticas são um jogo que não cura as doenças fundas deste mundo, principalmente quando ideologia, êxito que esconde fome, migrações desesperadas, a morte em massa nos mares, a violência que os mercados instauram na luta pelo petróleo e outros recursos que, no calendário próximo, são a água e o sol, essenciais à vida.
O mundo das artes continua secundarizado, tendem a normalizá-lo como fazem com o que sejam mundos administrativo ou fabril, querem arrumá-lo, não querem as suas virtualidades poéticas “sem regra” — não há mundo mais disciplinado que um teatro em laboração — que não a própria: a da liberdade da criação. Julgam poder metê-las, às artes, numa plataforma digital, cheia de enredos contabilísticos que não libertam para a sua função social, mas que visam o controlo informático, sem rosto. Mesmo assim, não lhe dão a importância nem do fabril nem do administrativo, nem do social — não há por exemplo, com o quase nada orçamental de que vivemos, uma fiscalidade que ajude. No meio de tanta reversão positiva, para nós, nas artes, a missa é a mesma. As artes não entretêm, revelam ocultos, o que está mal, o desencontro, a mentira, a injustiça, o massacre, a sua missão não é a rendibilidade mas a libertação das mentes e a partilha do sensível. E o teatro é instrumento da memória e arquivo dinâmico do mundo, dramaturgia e encenação. É, desde Ésquilo, as questões da pólis, a condição humana e planetária, a sociedade em questão. A pólis é a aldeia global, a Grécia o planeta. Será de todos o que é de facto de alguns? Que lei é esta que rege o mundo? Desde Édipo-Rei ou Antígona ou Electra, que os gregos problematizam, questionam, não param de se interrogar. Desde A paz que este ano faremos com o patrocínio esclarecido do Presidente da Câmara e da Vereação no seu todo.
Mas adiante. Que fazer? O que aqui vem. De nossa escolha própria faremos um espectáculo para crianças, Dois narizes num mar de plástico, uma criação de equipa, um Aristófanes, A paz, o debate do botão nuclear anda aí e as guerras estão para durar e faremos, de Álvaro Zúñiga, Teatro impossível, uma experimentação dos limites do teatro e das suas linguagens, da sua linguagem, da linguagem. Isto na primeira parte do ano. E abrimos novas perspectivas retomando e criando cumplicidades. Assim estarão connosco o Miguel Azguime e a Miso Music, que têm desenvolvido um trabalho pioneiro incansável no domínio da criação musical contemporânea, o Jorge Silva Melo e os seus Artistas Unidos, sempre na esteira de alargamento dos reportórios e das dramaturgias contemporâneas, com perseverança, no caso Dimitriádis e Duras, autores que não cedem nem à convenção nem ao bonitinho, o Chão de Oliva, Companhia de Teatro de Sintra, que trará um espectáculo de marionetas a partir de música de Prokofiev, o Teatro das Beiras, com Eduardo De Fillippo, encenação do nosso amigo de longa data, Gil Nave, autor que amamos e fizemos, teatro musical que de há décadas tem animado as comunidades serranas da Estrela.
E a cereja no topo do bolo, que é? O programa de poesia contemporânea elaborado pelo Henrique Manuel Bento Fialho. Respigo do texto dele o parágrafo inicial para terminar da melhor maneira: “Por onde anda a poesia? Quem a escreve? Quem a publica? Quem a lê? Quem são os poetas do nosso tempo? Terá a poesia leitores? Que motivações alimentam os editores de poesia?”

fernando mora ramos[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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