O Teatro da Rainha fez 32 anos. São 32 anos intensos e variados, já que, como os circos, fez teatro fora da mãe casa, Caldas da Rainha, em Évora, Coimbra, Lisboa e Porto, tendo uma inigualável experiência de digressão nacional, apresentando espectáculos em aldeias assim como em contexto europeu e internacional – participou em 2008 no Festival da União dos Teatros da Europa, em Cluj, na Roménia, e desenvolveu em 1995, um projecto teatral em Maputo, Moçambique.

Sendo uma companhia de reportório é uma companhia de experimentações: o seu modo de proceder quanto à montagem dos textos que escolhe elabora dimensões cénicas e associações dramatúrgicas nem sempre óbvias no material de base. Deste modo tanto a estratégia de “parabolizar” o Ruzante de o Falatório do Ruzante de volta da guerra deslocando-o para o tempo da 1ª guerra e associando Chaplin a Ruzante, revela um modo de trabalho ancorado nos materiais da história e na reflexão sobre as suas continuidades de descontinuidades, como a associação entre o Homem da flor na boca de Pirandello e Movimento contínuo, um estranho equilíbrio, de Rocco D’Onghia, no espectáculo A estação inexistente, confronta dois tempos e duas escritas num mesmo espaço contentor, a estação ferroviária central de Milão, numa opção que radicaliza a força da ficção associada à memória e ao seu exercício, como uma experiência vital – somos de algum modo o que nos preenche e o futuro é uma forma de resistir ao poder do vazio criado pelo império crescente de uma homogeneidade globalizada pelo predomínio dos mercados sobre as democracias.

Caracteriza a companhia uma diversidade de escolhas, com uma incidência nas problemáticas contemporâneas historicamente relevantes, que se podem reconhecer na frequência de peças de Heiner Muller, George Tabori, Jean Christophe Bailly, Markus Kobelli, Joseph Danan e Thomas Bernhard, entre outros.

Esta frequência dos contemporâneos não descura no entanto a prática de pôr em cena os clássicos, com um afecto claro pelos clássicos populares e pelo que poderemos denominar um realismo aberto, aquele que mistura os registos e que não se define como um género ou uma tendência estética fechada ou de receita. Assim fizemos e faremos Vicente, Molière, Marivaux, Goldoni, Strindberg e Pirandello – estes fundadores de uma modernidade que nos toca em cena – justamente tentando fazê-los para os espectadores de hoje sem negar as determinações da história, dando profundidade histórica e antropológica às nossas realizações, não cedendo nem às estéticas técnico/exibicionistas, nem ao academismo enfadonho, semiológico ou embasbacado com as performatividades várias. O corpo não é uma descoberta de hoje, é-o por certo para quem não o pratica. O teatro é grego, o espectáculo romano e entre a presença imperfeita da fragilidade do corpo do actor respirando as palavras do autor e a força aleatória do escândalo publicitado ou a predisposição para as diversas visibilidades mediáticas rendíveis, escolhemos a primeira, uma causa possível.

O Teatro da Rainha tem entretanto um projecto novo: o da construção de um edifício de raiz com uma arquitectura única e específica. Esse projecto serve um desígnio claro de aprofundar as suas práticas de experimentação, criação e formação, e resulta justamente de um balanço, sob a forma de arquitectura, das nossas criações cénicas, e da possibilidade que tivemos de experimentar teatro nas mais diversas e díspares condições: da sala Estúdio da Casa da Cultura de Caldas da Rainha ao Teatro Garcia de Resende, da antiga Lavandaria do Hospital Termal, ao CCB, do teatro feito em Casas do Povo ao realizado em Adros de Igreja, do Teatro Dona Maria ao Municipal da Guarda, do sótão do Museu Nacional da Ciência e da Técnica à Biblioteca de São Pedro, na Universidade de Coimbra, à Biblioteca Pública de Évora, da Praça de Tavira as salas de Cáceres e Sevilha, do interior transmontano, aldeia de Anelhe, a Sagres, etc.

O Teatro da Rainha trabalha neste momento para no mais breve prazo ter a possibilidade de se estruturar como um verdadeiro Centro de Experimentação Dramática e de Formação, uma companhia/escola, por assim dizer. Para o que conta com a sua teimosia insistente e combativa e espera contar também com o beneplácito dos deuses, grandes e pequenos.